páginas de rascunho

atualizações de uma pessoa que já não tem mais todos os dentes da boca e, mesmo assim, ainda acha que não tem tanto juízo

no dia de ontem, meus dentes do siso foram arrancados de onde estavam, deitadinhos enquanto tentavam empurrar os irmãos para algum lugar que nem existe. agora, quebrados e em alguma lata de lixo especial, suas memórias ainda ecoam na minha gengiva, dolorida pelo trauma, na esperança de jamais serem esquecidas.

é curioso como eu nunca acho que sei das coisas, apesar de estar próxima do fim da faculdade e, mais ainda, próxima dos vinte e dois anos (o que não é muita coisa, ainda mais com a expectativa de vida atual, mas qualquer ano novo na casa dos vinte parece ser muito mais do que realmente é). vivo lembrando e esquecendo das coisas o tempo todo, padecendo por já não ser mais quem eu fui enquanto torço pra me tornar alguém melhor, e, de alguma forma, nada nunca parece estar cem porcento - pelo contrário!

minha cabeça sempre parece andar em círculos, que na verdade são espirais, com os mesmos problemas, apesar de novas realidades. é assim pra todo mundo ou eu sou a única contemplada a viver nesse ciclo infinito cercado por eu mesma? só queria ser constante em alguma coisa, mas tudo o que eu faço é conforme e do jeito que dá, enquanto questiono se é assim mesmo ou se deveria mudar alguma coisa. há um cansaço constante dentro de mim, que seria poético caso não fosse mórbido, que me segura para que eu não faça tudo o que seria capaz de realizar, mas ainda espero que seja só uma fase da idade (ou uma falta de dose maior do antidepressivo).

me cansa um pouco ver pessoas fazendo uma meta-adicionequalquercoisaaqui, apesar disso ser essencial para a mente humana, que não nasceu sabendo de nada e precisa aprender tudo antes de virar um gênio. boa parte do que vejo em aula são os professores falando sobre educação e como dar aulas, e é bom descobrir que as pessoas que admiramos também cometem erros, mas pensar em falar sobre os próprios erros sempre parece que carrega um peso maior do que realmente existe. o ser humano exagera em tudo o que ressoa ao próprio umbigo.

faz tempo que não escrevo no meu diário, parte por preguiça, outra parte por nem saber exatamente o que escrever. é ironico como eu tenho vários caderninhos + páginas no notion, mas, mesmo assim, nenhum lugar parece ok para eu depositar o que penso. em muitos dias, penso que isso acontece porque não tenho nada de interessante a acrescentar, e seria como essas pessoas que criam seus primeiros vídeos no youtube sobre como elas criaram porque queriam perder um medo que só existe na cabeça delas (admito que também me identifico e preciso enfrentar meus medos, mais dia ou menos dia), mas falar sobre o que você precisa fazer, enquanto faz, ainda parece ser como encher um copo com a água que tava num outro copo enchido por esse primeiro copo, nunca uma coisa nova. a verdade é que essa água já não é a mesma porque teve contato com o ar e agora ela tem uma velocidade, e qualquer outra coisa da química e da física que eu não sei adicionada ao pensamento de heráclito de éfeso, mas em algum momento, a necessidade de sair do básico existe, e como proceder a isso? se eu não tenho mesmo nada de interessante a acrescentar, por que a minha cabeça pensa em como seria legal voltar a não escreve nada com nada? não sei, isso aqui é só um rascunho que escrevo sem pensar muito pra não deletar tudo e fingir que nada aconteceu

um dia, no passado, eu era viciada em redes sociais de vídeos curtos, da mesma forma que agora me sinto presa na necessidade de estar constantemente consumindo vídeos longos. apesar de, cognitivamente, um ser menos prejudicial que o outro, ainda tem alguma coisa na minha cabeça que sente vontade de gritar toda vez que não há estimulo algum. nunca sei se é falta de consumir ou de criar, mas o consumo já tá ali, prontinho, e eu só preciso ficar imóvel enquanto vejo o que está acontecendo, sem a possibilidade de gastar todos os materiais em algo que nem vai dar certo, mas o chato é que o vazio ainda continua depois, e a cabeça fica com vontade de gritar mais ainda!

meus parágrafos são todos desconexos e contraditórios porque, novamente, sou um ser humano que está o tempo todo em espiral, e que odeia a metalinguagem enquanto a reproduz, porque é mais fácil fingir que faz o que quer fazer no lugar de realmente pensar em algo mais profundo (não que metalinguagem seja superficial, é só que, no meu caso, é) e talvez eu realmente não tenha nada a dizer, mas como dizer alguma coisa interessante se minha forma favorita de escrita é não pensar muito e só deixar que meus dedos no teclado ditem os pensamentos e torcer pra que no final saia alguma coisa coerente? eu não estava brincando ao chamar isso aqui de "páginas de rascunho", o problema é que, em muitas das vezes, esses rascunhos ficam por isso mesmo, sem passar pelo polimento ou execução - culpa do cansaço e tudo mais, apesar da minha vida nem ser tão difícil assim (mentira, tem momentos que ela é!)

às vezes eu foco apenas nos problemas da faculdade, que nem são problemas de verdade porque existem para serem resolvidos, e esqueço dos outros aspectos da vida, mas é melhor que seja assim. no momento atual, além da faculdade, meu principal problema (ou o que estou dando mais prioridade enquanto ignoro os outros) é o inchaço ocorrido pela extração dos sisos, que me garantiu uma semana de atestado e muito sorvetinho feito com fruta congelada + leite em pó. seria esse, realmente um problema? é claro que há uma dor envolvida, mas agora que já tá indo embora, nem parece ter sido tão ruim assim. é esse o problema dos problemas, a gente sempre minimiza depois que eles vão embora, e esquece o quão complicado é quando se passa por eles pela primeira vez

nunca sei o que é pessoal de mais ou de menos pra postar publicamente, até porque esse parâmetro parece estar sempre mudando conforme meu humor. falar sobre os sentimentos é uma coisa normal e humana, mas não dá pra ignorar que me sinto vulnerável ao saber que alguém vai ler. se parte de conviver em sociedade é falar bobagens, por que a cabeça ainda pensa que tem um holofote posicionado na própria cabeça? talvez um dia esse holofote seja usado da forma adequada, mas, até lá, eu não sei como terminar esse rascunho de texto, então só digo "tchau!" no meio da frase e torço pra que tudo o que escrevi tenha feito o mínimo de sentido